O termo mass attack, na criminologia, se refere a um tipo de ataque violento em massa que pode ser realizado por um indivíduo ou grupo. É caracterizado por atos violentos contra muitas vítimas, em um curto período e em um local específico, como escolas, igrejas, cinemas ou outros espaços públicos. Ao contrário do termo massacre, que é frequentemente utilizado de forma genérica para descrever qualquer ataque violento com múltiplas vítimas, o termo mass attack é mais específico e se concentra nas características do próprio ataque, incluindo suas motivações, táticas e impacto psicológico na sociedade. O conceito de mass attack é importante para a criminologia, pois ajuda a entender melhor como esses eventos ocorrem, quem são os perpetradores, suas motivações e como desenvolver estratégias de prevenção e intervenção mais eficazes para evitar futuros incidentes.

A literatura criminológica sobre mass attacks é predominantemente estadunidense, pois os Estados Unidos têm uma taxa relativamente alta de tiroteios em massa em comparação com outros países. Esses eventos recebem grande atenção da mídia e do público em geral e têm impacto significativo na sociedade e na política do país. Além disso, as universidades americanas têm um número significativo de pesquisadores e acadêmicos dedicados ao estudo da criminologia e da violência em massa, o que contribui para a produção de pesquisas e estudos sobre o assunto. No entanto, é importante notar que, com o aumento dos casos de violência em massa em outros países, como na Europa e América Latina, a literatura criminológica sobre o assunto tem se expandido para incluir mais pesquisas internacionais.

O massacre na Columbine High School, em 1999, estabeleceu um contexto de excepcionalidade para a segurança nas escolas dos EUA, já que esse evento foi um ataque extremista com potencial lesivo em massa. Esse massacre gerou um movimento de culto à morte em torno dos autores, chamados de columbiners, que admiram o caso e compartilham sua admiração em fóruns e redes sociais. No entanto, os motivos para os tiroteios em escolas no Brasil parecem estar ligados a outras temáticas além da subcultura de Columbine. Tiroteios em escolas não são exclusivos dos EUA, sendo um problema global que exige ações preventivas e de segurança adequadas em todo o mundo.

Os ataques em campus universitários nos EUA têm sido principalmente realizados por pessoas ligadas à própria instituição, como alunos, ex-alunos, funcionários ou pessoas afiliadas a grupos sociais dos alunos e funcionários. Além disso, os autores dos ataques têm histórico de comportamento problemático e podem estar enfrentando problemas de saúde mental ou problemas sociais mais amplos que os levam a realizar esses ataques. É crucial compreender o comportamento dos agressores para prevenir futuros ataques e desenvolver estratégias de segurança eficazes.

Peter Langman (2009) examinou as motivações, pensamentos e comportamentos dos atiradores de escolas, oferecendo uma análise psicológica e social de como esses eventos ocorrem. Langman argumenta que a violência em massa nas escolas é um fenômeno complexo e multifacetado que resulta de uma interação de fatores individuais e sociais, incluindo o isolamento social, o bullying, o acesso a armas de fogo e a influência da mídia.

Em Extreme Killing: Understanding Serial and Mass Murder (2019), James Alan Fox aborda a motivação e os fatores envolvidos nos casos de homicídios em série e homicídios em massa. O autor identifica características comuns entre os perpetradores desses crimes, como sentimentos de raiva, frustração, vingança ou rejeição, especialmente quando se sentem injustiçados ou rejeitados.

O isolamento social e a dificuldade em estabelecer relações interpessoais também são comuns, muitas vezes devido à falta de compreensão ou apoio social adequado. Problemas psicológicos, como transtornos de personalidade ou psicopatia, podem aumentar o risco de cometer tais crimes, pois esses indivíduos têm dificuldade em controlar impulsos violentos.

Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, que foi palco de ataque

Fernando Frazão/Agência Brasil

O acesso a armas de fogo e outros meios de cometer o crime é um fator relevante, já que esses homicídios geralmente envolvem o uso de armas de fogo, facilmente disponíveis em países com leis permissivas. Experiências traumáticas na infância, como abuso ou negligência, também podem ser um fator de risco, afetando o desenvolvimento emocional e psicológico.

Fantasias violentas prévias ou comportamentos agressivos também podem indicar um potencial de risco, pois esses indivíduos podem estar dessensibilizados à violência ou ter uma predisposição para ela.

Os perpetradores de homicídios em série e homicídios em massa geralmente planejam cuidadosamente seus crimes, com antecedência e organização meticulosa. Por fim, a busca por atenção ou para promover uma causa específica pode ser um fator motivador para alguns perpetradores, que buscam notoriedade e reconhecimento por seus atos.

Nesta esteira, Lankford et al. (2019) afirmam que, em sua maioria, os eventos fatais de mass attack podem ser previstos por comportamentos anteriores ao fato, como expressão de pensamentos violentos intencionais, interesse específico em assassinatos em massa, antecedentes criminais (incluindo infrações menores) e interesse na aquisição e uso de armas de fogo. Esses comportamentos, quando ocorrem em conjunto e em um curto espaço de tempo, podem indicar um risco aumentado de comportamento violento. Por exemplo, se uma pessoa começar a fazer postagens alarmantes nas redes sociais, adquirir armas, expressar ideações suicidas e apresentar comportamento agressivo, esses sinais combinados podem ser preocupantes e justificar uma intervenção imediata. É importante estar atento a esses comportamentos e levá-los a sério para ajudar a prevenir a violência.

Em termos mais amplos, Turanovic e Siennick (2021) associam a violência escolar ao comportamento delinquente/antissocial, TDAH e abuso infantil. Jovens com sintomas de TDAH ou que sofreram abuso físico, sexual ou negligência têm maior propensão a se envolverem em comportamentos agressivos e violentos na escola.

O estudo também destaca que a rejeição pelos colegas, a percepção de violência como aceitável ou justificável e a associação com pares desviantes aumentam a probabilidade de envolvimento em comportamentos violentos.

Por outro lado, jovens sociáveis, que demonstram comportamentos pró-sociais e frequentam escolas com clima positivo, têm menor probabilidade de cometer violência escolar. A aceitação e preferência social pelos pares são os fatores mais protetores contra a vitimização escolar, indicando que jovens bem aceitos têm menor probabilidade de serem vítimas de bullying ou violência. Outros fatores preditores de vitimização escolar incluem vitimização prévia, vitimização pelos pares e experiência de múltiplas formas de vitimização.

Lankford e Silva (2021) analisaram a trajetória de perpetradores de tiroteios em massa nos EUA, desde o tiroteio na Columbine High School, em 1999. Os dados revelaram que o contato com profissionais de saúde mental geralmente ocorreu muitos anos antes dos ataques e terminou antes dos mesmos.

A presença de doença mental foi identificada como constante na vida dos perpetradores, mas não necessariamente um fator determinante para os ataques. Problemas no trabalho e na escola também estiveram presentes na trajetória dos perpetradores, começando antes dos ataques e continuando até mais próximo do momento deles.

Os autores destacam a importância de intervenções por parte de empregadores e educadores para prevenir esses ataques. A aquisição de armas de fogo geralmente ocorreu em estágios posteriores, após o interesse dos perpetradores em cometer assassinato em massa e, sendo assim, os autores sugerem que Erpos (extreme risk protection orders), também conhecidos como red flag laws podem ajudar a reduzir a ocorrência desses ataques, proibindo a venda de armas de fogo para indivíduos explicitamente perigosos.

De acordo com o US Secret Service (2019), é difícil distinguir falsos alarmes de evidências preditivas de um potencial ataque violento em massa. No entanto, há uma prevalência de comportamentos observados que podem indicar a predisposição para tais ataques. O estudo identificou fatores estressantes na vida dos autores desses ataques, sendo que pelo menos um desses fatores ocorreu nos cinco anos que antecederam o ataque em todos os casos analisados.

Esses fatores incluem problemas em relacionamentos familiares ou românticos, dificuldades no trabalho ou estudos, contatos com a polícia devido a atos violentos direcionados a outras pessoas e questões pessoais, como falta de moradia ou perda em competições. Podem aumentar a vulnerabilidade emocional e o estresse, indicando um risco potencial para comportamentos violentos futuros. Os motivos principais para os ataques são desavenças em relação a conflitos pessoais ou no trabalho, surtos e agravamentos de problemas de saúde mental e motivação ideológica.

Curiosamente, houve uma redução nos ataques motivados por razões religiosas ou ideológicas nos EUA entre 2017 e 2018. Mesmo quando a motivação para o ataque era declarada ou percebida, os autores apresentavam sintomas de transtornos mentais, como depressão, sintomas psicóticos e tendências suicidas.

Em análise crítica, Pittaro (2007) avaliou a teoria do controle social de Hirschi, em relação à violência escolar, argumentando que, em resposta aos tiroteios em massa, muitas escolas nos Estados Unidos criaram políticas de tolerância zero rigorosas para prevenir ataques baseados em escolas, embora a literatura sugira que essas políticas não são eficazes. Nesse sentido, destacou que a pesquisa sobre assédio entre colegas, como bullying e vitimização, é importante para entender os sintomas e riscos associados à agressão física, verbal e relacional entre estudantes.

Nessa esteira, Hollister e Scalora (2015) afirmam que as escolas e universidades nos EUA costumam adotar medidas de segurança física caras e políticas de tolerância zero para combater o risco de violência direcionada. No entanto, o uso de tecnologia não tem sido eficaz na prevenção de ataques violentos em massa, que são raros e, portanto, difíceis de detectar. Por essa razão, é necessário adotar uma abordagem mais pontual e preventiva. De acordo com os autores, uma trajetória comportamental em direção à violência intencional é um fator significativo que precede quase todos os ataques direcionados.

Portanto, uma das melhores formas de prevenção é que profissionais de segurança do campus trabalhem em conjunto com profissionais de assistência psicossocial para identificar e intervir em comportamentos ameaçadores que possam indicar violência previsível. Por essa razão, a prevenção comportamental deve ser a principal medida de intervenção, com iniciativas que possam ser implementadas desde a fase escolar e exigem a colaboração interna e externa da universidade, por meio de projetos de extensão. Através do estudo sistemático de casos, as instituições de ensino superior dos EUA e Canadá concluíram que as equipes de intervenção comportamental são as medidas mais efetivas para prevenir a violência direcionada.

Em particular, os ataques em escolas como Columbine e Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, têm sido objeto de muita pesquisa e análise na criminologia, devido à sua natureza chocante e devastadora. Esses incidentes envolvem geralmente jovens que têm fácil acesso a armas de fogo e que apresentam comportamento agressivo e/ou isolamento social. Além disso, há uma tendência de que esses atiradores procurem atenção da mídia e o impacto emocional que seus atos podem ter na sociedade.

Por esses motivos, a criminologia tem se dedicado a entender melhor as características desses perpetradores, suas motivações e como identificar precocemente indivíduos em risco de cometer tais atos. A compreensão desses fatores pode ajudar a desenvolver políticas e programas de prevenção mais eficazes para impedir futuros incidentes.

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Referências:

FOX, J. A. Extreme Killing: Understanding Serial and Mass Murder. Sage Publications, 2019.

HOLLISTER, B. A.; SCALORA, M. J. Broadening campus threat assessment beyond mass shootings. Aggression and Violent Behavior, v. 25, Part A, p. 43-53, nov./dez. 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1359178915000907. Acesso em: 16 mai. 2023.

LANGMAN, P. Why kids kill: Inside the minds of school shooters. Palgrave Macmillan, 2009.

LANKFORD, A.; ADKINS, K. G.; MADFIS, E. Are the Deadliest Mass Shootings Preventable? An Assessment of Leakage, Information Reported to Law Enforcement, and Firearms Acquisition Prior to Attacks in the United States. Journal of Contemporary Criminal Justice. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1043986219840231. Acesso em: 16 mai. 2023.

LANKFORD, A.; SILVA, J. R. The timing of opportunities to prevent mass shootings: a study of mental health contacts, work and school problems, and firearms acquisition. Journal of Interpersonal Violence. Disponível em: https://doi.org/10.1080/09540261.2021.1932440. Acesso em: 16 mai. 2023.

PITTARO, M. L. School Violence and Social Control Theory: An Evaluation of the Columbine Massacre. International Journal of Criminal Justice Sciences, v. 2, nº 1, p. 1-12, jan. 2007.

TURANOVIC, J. J.; SIENNICK, S. E. The Causes and Consequences of School Violence: A Review. National Institute of Justice. Disponível em: https://www.ojp.gov/pdffiles1/nij/302346.pdf. Acesso em: 16 mai. 2023.

U.S. SECRET SERVICE. Mass Attacks in Public Spaces  2018. U.S. Assessment Center, Department of Homeland Security. Disponível em: https://www.secretservice.gov/data/press/reports/USSS_FY2019_MAPS.pdf. Acesso em: 16 mai. 2023.

David Pimentel Barbosa de Siena é professor de Criminologia, Direito Penal e Direito Processual Penal da Academia de Polícia Dr. Coriolano Nogueira Cobra (Acadepol), da Strong Business School (Strong FGV), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e da Universidade Nove de Julho (Uninove), doutorando e mestre em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC (UFABC), delegado de polícia do estado de São Paulo (PC-SP).

Consultor Júridico